O conceito [em fotografia] | #Idealização

#AalmaDoProjeto

O que você quer dizer com sua fotografia?

Comentei anteriormente que um projeto fotográfico não precisa ser complicado e pode surgir de qualquer lugar. Mas, também não quer dizer que vai ser simplório. Não quer dizer que não tem potencialidade, expressividade, intencionalidade. Trata-se de encontrar algo além da obviedade, adentrar nas camadas profundas. Para que algo tenha essa “potência” é necessário pensar em algo com um conceito forte, com uma essência e pessoalidade. E assim buscar algo que não se dilua, que tenha a força necessária para reter a atenção. Não só pela estética – já que isso é algo natural nesse universo pictures – mas pela criatividade e o olhar de autor. Pois bem, adentramos aqui no universo do conceito. Isto é, aquilo que torna a ideia – por mais que ela já tenha sido explorada – interessante e com o status de arte.

A proposta de conceito parece simples no sentido da palavra; porém complexa, pois envolve além da parte objetiva da fotografia, o toque da percepção do autor. O que engloba não só o tema em si, mas toda a habilidade em transformar o objeto (o tema) em algo mais instigante que o habitual. Nessa esteira, acredito que o “conceito fotográfico” pode ser encaixado ou delineado dentro de um outro conceito (e abordagem teórica). Vejamos.

Como fotografia é arte, é expressão e linguagem, empresto um conceito da Literatura que cai bem no contexto dessa arte que “escrever com luz”. Na Teoria da Literatura, um texto ganha o status de arte ao assumir o status de “língua poética” em contraposição a natureza da língua comum. Em a “Arte como Procedimento”, Victor Chklovski diz que a língua é trabalhada de modo rico ao ponto de oferecer ao interlocutor algo mais ‘desautomatizado’. Trata-se de uma singularização. Ou seja, para o crítico russo, singularização é criar uma percepção particular do objeto (tema/objeto), diferenciando-o dos demais. Um elemento importante no fazer “arte”. Esse processo também é chamada de Literariedade[1].

Sendo assim, um escritor utiliza de inúmeros recursos e meios para obter uma singularização. Em fotografia, vou me arriscar sem pretensões, que há um processo muito semelhante – uma espécie de singularização fotográfica da realidade, afinal, trata-se de linguagem. Incorpora-se elementos desde a escolha do assuntos, das temáticas envolvidas, o tipo de suporte fotográfico (filme, digital), o formato e finalidade (para um livro, uma exposição, uma publicação), entre outros, como as própria natureza da linguagem fotográfica com o recorte, a seleção, ângulo, a composição.

Além desse aspecto material, o conceito está muito relacionado a certa subjetividade ou pessoalidade. O por que você está fotografando. Ou ainda, um estreitamento do objeto/tema ao contexto. Isto é, a razão (por que) você está fotografando, como e de que maneira[2].

Questão pertinente, tem muito a ver com a “intenção”. Questão que já nasce no próprio sentido de escolher fazer a fotografia – e no nosso caso, o projeto fotográfico. Sendo assim, a abordagem conceitual reflete em um sentido de interpretação e lógica individual (ou coletiva, já que abordamos signos e representações). Vai importar, e muito; não somente a história (tema), mas como você contou essa história.

“Se fotografar significa expressar um ponto de vista, ter o mesmo que milhões de outros fotógrafos significa não ter nenhum.” – Martino Pietropoli – The difference between good photos and beatufil photos.[3].

Portanto, a fotografia é um ponto de vista, não o ponto de vista dos outros. Se o tema é um objeto, proposta ou interrogação existencial, o conceito traz possíveis ideias, respostas ou mesmo novas perguntas, para esse tema. Perpassa pela construção, identificação do autor com o tema, lapidação (como o escritor faz com suas personagens não só sentido físico, mas psicológico, a plausibilidade), o estudo e a busca por respostas – ou outras indagações. E quando isso fica latente no trabalho fotográfico, atinge-se, de certa forma, o aspecto do singular. De transformar aquele banal nosso de cada em algo mais extraordinário.

Para fechar, como correlacionei a questão do ato fotográfico e suas representações com o ato de escrever e a literariedade, vale dizer que é por isso que “o ato fotográfico – que se quer teoricamente um registro automático – pode, em certos momentos e nas mão de certos fotógrafos, revelar um verdadeira poesia”[4].

Referências

1- FURTADO, João Carlos D. Teoria da Literatura. Maringá-PR, Unicesumar, 2020.

2 – SHORT, Maria. Contexto e Narrativa em Fotografia. São Paulo: Gustavo Gili (GG), 2013. p. 45.

3- PIETROPOLI, Martino. The difference between good photos and beautiful photos – goods photos tell stories. Avarege photos are just beautiful. Medium, 2017. Disponível em:

4 – FONTANARI, Rodrigo. Entre a fotografia e a literatura: sobre a poética de Haruo Ohara. Studium, nº 40. Projeto de Iniciação Científica. Varginha: Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), 2018.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s