Mulheres pela Democracia | #DoArquivo

Do Arquivo – Uma história sobre a foto, sobre o contexto, intenções da criação e a observação pessoal.

A fotografia foi feita no efervescente contexto dos dias que antecederam o processo de vistas ao impedimento do mandato de Dilma Rousseff como presidente do Brasil. Como todos sabem, o processo de Dilma Rousseff iniciou-se em 2015 e culminou com o afastamento por acusações de crime de responsabilidade por pedaladas fiscais em agosto de 2016.

Durante todo o processo houve pressão popular favorável e contrária ao impeachment, especialmente por grupos que entendiam o processo como um golpe institucional. O país resumia-se a uma dicotomia estética e ideológica de “amarelinhos” versus “vermelhinhos”. No caso dos defensores da presidenta Dilma-Lula, foram montadas caravanas, jornadas pela democracia e atos diversos. Na outra ponta ideológica, a cidade de Curitiba se destaca como idealizadora do segundo maior protesto contra Dilma-Lula.

No derradeiro agosto, na Praça Santos Andrade, em Curitiba, foi realizado o ato “Mulheres pela Democracia” com a participação da artista Alice Ruiz e de Letícia Sabatella (via teleconferência). Fotografei todos os lances (de olho na estética do protesto – pessoas, cartazes, encenações, falas, entre outros elementos pertinentes). Mas, a gente enquanto fotógrafo, que olha e recorta as realizações do mundo, os elmentos visuas por aquele visor e os eterniza ou mesmo os reconfigura, sempre quer ir além e ter a sorte, talvez dádiva, de extrair algo além do meramente factual ou representável. Algo mais pungente. Uma espécie de punctum, como apregoa Roland Barthes.

Mais Sabatella, menos machismo”, enunciava um cartaz.

Em relação à criação da foto, como ocorre nesse tipo de evento público, não é possível planejar muito. Espera-se mais que algo lhe seja oferecido, do que propriamente haja interferências. E, foi justamente o caso desse retrato. Uma singela mulher.

A observação, a discrição, o respeito, são posicionamentos muito importantes nesse tipo de manifestação. Em relação ao registro, prestei atenção aos cartazes, movimentação, às falas; inclusive da Alice Ruiz ou a participação virtual da Letícia Sabatella. Não surtiu tanto interesse e intensidade quanto a postura, a roupa, as flores, o anel, o olhar daquela mulher. Funcionava e sintetizava perfeitamente tudo aquilo. Era uma expressão pessoal e simbólica dos sentimentos daqueles. Eu tinha um retrato.

Minha observação pessoal é que todos já sabiam qual seria o desfecho das coisas, mas era necessário tentar até o fim. Na pior das hipóteses, deixar claro, expor as opiniões, desejos, críticas e realidades do que estava acontecendo. Mesmo que fosse apenas nos gestos de flores a todos os acusadores. E, falando em protesto, flores, lutas, antes da pose e convenção da foto, do acordo informal, num breve acessar de repertório, lembrei-me da icônica foto de Marc Riboud que traz uma jovem (a americana Jan Rose Kasmir) impondo-se ao soldados americanos da Guarda Nacional do lado de fora do Pentágono (EUA). Foi um devaneio rápido, sei disso; pois é outra configuração, outro contexto e temporalidade. Contudo, o símbolo (no caso as flores e até certa aparência da mulher), de certa forma, funcionou como um elemento contínuo, como ressalta Geoff Dyer, no livro O Instante Contínuo. É a cabeça de um fotógrafo trabalhando.

Por fim, infelizmente não me recordo o nome da mulher. Devo ter anotado, mas não encontrei – nem no bloco de anotação, nem nos metadados . Mas, como todas no ato, na declamação da poesia, na música, tornaram-se metaforicamente “Geni”. Ou como diria um outro cartaz, num outro local, em outra data: “Somos todos Dilma”.

Em relação a foto ( e ao trabalho propriamente), não foi publicada.

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