Na prateleira das coisas importantes | #DiaMundialDaFotografia

Foto e texto Henry Milleo.

Essa da foto foi a primeira câmera fotográfica que eu tive contato em minha vida. Uma Kodak Instamatic I77XF – hoje eu sei o nome dela, a marca, o modelo, o funcionamento. Mas quando primeiro a conheci, ela era apenas ‘a câmera’, ou ‘a máquina fotográfica’.

Atualmente ela descansa em minha prateleira, limpa e serena. Eventualmente, faço alguns disparos imaginários de tempos em tempos. Ainda funciona, mas não existem mais filmes para ela – usava um cartucho de filme 126, geralmente com 24 poses como padrão.

Era a câmera da minha mãe e eu me lembro bem do dia que ela ganhou de presente do meu pai. Foi em um Natal, pelos idos de 1980, não sei o ano correto.



Naquela época fotografar era um acontecimento. Filmes e revelação eram caros e pouco acessíveis com meus pais criando 4 filhos. E tudo ficava ainda mais difícil vivendo em uma cidade pequena do interior sem as “modernidades” das cidades maiores ou da capital.

Por conta disso a câmera só saia de sua caixa, cuidadosamente guardada na gaveta da escrivaninha – gaveta direita, fechada à chave – em momentos especiais. Na visita de um parente ou amigo que não se via há muito tempo, aniversários, festas de fim de ano ou alguma viagem de férias. Quando saíamos em viagem sempre era feita a pergunta: “pegou a câmera?”.

Assim um filme durava o ano todo, às vezes mais. Cada quadro era muito bem contado e cada disparo era precioso, não se faziam duas fotos iguais. Por isso era comum ter fotos de grupo de pessoas em que alguma saia com o olho fechado. Fazia parte e uma das diversões das crianças era tentar sair na foto fazendo alguma careta.

E quando o filme era enviado para revelação era preciso esperar vários dias para ver o resultado. Mas eram esses dias de espera pela volta do filme que demorava mais. Mais do que todo o tempo que precisamos esperar desde que as fotos foram feitas, às vezes há mais de um ano.

Quando toda essa eternidade passava e as fotos chegavam, todos sentávamos ao redor da mesa e minha mãe ou meu pai tirava as fotos de dentro de um envelope – amarelo com a marca da Kodak e o nome do laboratório ou estúdio – e íamos passando cada postal 10×15 em papel brilho, de mão em mão, relembrando o momento em que a foto foi feita, comentando cada uma delas, rindo e às vezes chorando.

Aí vinha o ritual de colocar as fotos no álbum que era um “brinde” com o serviço de ampliação. Um pequeno caderno com páginas plásticas no tamanho para as ampliações e uma capa em papel cartão com uma foto de paisagem. Essas paisagens de castelo, montanha com neve ou uma praia de águas azuis. Coisas que a gente nunca tinha visto na vida. Onde eu cresci a paisagem era diferente. Árvores, campos, pinheiros e casas simples. Nada de castelos ou montanhas com neve.

O álbum precisava de um sequenciamento. Era um juntar as fotos do mesmo momento ora por ordem cronológica, ora pela questão visual, ora pelos personagens retratados.

Depois o álbum ia para uma caixa cuidadosamente colocada em uma prateleira interna do guarda-roupa dos meus pais, ao lado de uma caixa de madeira onde minha mãe guardava objetos de valor – na maioria sentimental – como um broche antigo, um anel, um pedaço de papel rabiscado com a caligrafia de minha bisavó, algum documento, uma antiga imagem de santo esculpida em chumbo e coisas do tipo.

Era lá que as fotos ficavam, na prateleira das coisas importantes. E só saiam quando algum parente ou amigo chegava de visita e queria ver as fotos da última estadia na casa. Assim era a fotografia. Um ritual importante de preservação. O suporte físico da memória de nossas vidas testemunhadas por uma Kodak Instamatic.

Na minha cabeça de moleque, a fotografia sempre foi essa coisa notável. Algo que, de tão importante, só aparecia em momentos muito especiais e era guardada junto com coisas importantes. E talvez essa sensação de importância seja o que me levou a fotografar. E, por conta dessa profissão eu acabei rodando boa parte do mundo, e vi castelos, montanhas com neve, vulcões e ruínas de cidades tão antigas quanto o próprio tempo. E sigo fotografando.

Henry Milleo – 19/08 – Dia mundial da fotografia.


P.S.: Em minha casa as fotografias ainda são guardadas em uma caixa que eu deixo na prateleira de coisas importantes, na estante ao lado daquela Kodak Instamatic.

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