Falam as Paredes – entre a transgressão e o discurso | #iF Zine

As ruas estão repletas de opiniões. Muros marcados com aforismos baratos, rabiscos, desenhos inelegíveis e devaneios. Mas também há os discursos mais politizados. Desde os tempos antigos, as paredes são uma folha branca para de um anônimo pensador e convite à expressão. Uma grande galeria aberta, cheia de arte, de poesia ou de indignação.

Mesmo em tempos de hiperconectividade e dispositivos móveis como smartphones, amparados por todo tipo de redes de sociabilidade, opinião, ou engajamento, os muros de concreto – ou tapumes de construção – ainda incorporam pensamentos e descontentamentos. Em especial as denominadas pichações de cunho político, que podem ser vistas em todas as cidades do mundo. Essas pichações (mas também cartazes e lambe-lambes) disputam o cenário visual com outras falas, discursos, marcas e logotipos comerciais do espaço urbano.

Trata-se de um “ato comunicacional” alternativo, questionador, transgressor, de contracultura (também classificado como desobediência civil), que carrega uma caligrafia de crítica crua e certamente com doses de verdades ou questionamentos acerca do que deve ou se acredita que precisa mudar.

A proposta

Falam as Paredes” é um pequena série fotográfica desenvolvida em meados de 2015-2016. Basicamente nasce de uma ideia lida (for free). Questão é título emprestada do livro do livro “Teatro do Bem e do Mal”, de Eduardo Galeano. Na interpretação do jornalista e escritor, os muros, as paredes, não se sentem violadas, aliás, muitas vezes ficam agradecidas, pois elas respiram outras falas que não são os anúncios publicitários e comerciais. Essas paredes trazem mensagens e sentimentos coletivos que transcendem seus autores, pois as paredes são o que ele chamou de “mais democrática de todas as imprensas”. Uma correlação com o papel e postura da grande imprensa e dos meios de comunicação.

Outra leitura norteou a proposta – pelo menos no sentido da pesquisa e escopo conceitual para entender os sentidos e obsessões dos rabiscos e pichos no cenário urbano. A leitura do artigo “A luta pelo logotipo”, de Christoph Türcke, publicado no livro Mímesis e Expressão, também ajudou a apurar o olhar sobre o fenômeno.

Entre a transgressão e o(s) discurso(s)

Esses tipos de “pichos” podem ser encontrados em qualquer parte do mundo, não obstante, desde os tempos antigos. Alguns têm cunho mais universalista, outros mais regionalizados. Todavia, inevitavelmente, carregam um discurso. Entre eles: registros de opiniões contra o aumento de impostos, oposição a políticos e decisões políticas, críticas às instituições representativas, posicionamentos em defesa de direitos, de causas e grupos minoritários, feminismo, polarização e ódio, debate de gênero e toda uma gama ideológica de fatos sociais contemporâneos que são resgatados – marcados, grafados – conforme a situação social e período.

O interesse surgiu com alguns registros para o projeto Voto em Imagens. Também retomei o olhar a essas expressões por volta de 2013, logo após a eclosão dos protestos das jornadas de Junho/julho. De alguns registros esporádicos, acabei por reunir uma série.

O meu interesse está voltado às mensagens com o teor do discurso político ou ideológico – no sentido amplo do termo. Pois, independente da discussão ou problemática, debate de juízo ou memso acerca da estética, acabam proporcionando uma reflexão de contestação, caracterizando um movimento militante – mesmo que micro. Ou mesmo quais espectros ideológicos são pedrominantes: esquerda, direita, apolíticos, anarquistas, aforismo filosóficos etc.

Se considerarmos o ato político e ideológico no contexto das redes sociais e no universo das manifestações e engajamentos de hashtags e trends, os muros continuam a ser uma obsessão mesmo nesse tempo de smartphones e hiperconectividade. Será que a pessoa não poderia escrever em seu blog, numa rede social ou outro meio qualquer de tantos que há por aí? Ou a transgressão, o “gênero discursivo” do muro empodera o ato numa espécie de apropriação da urbes (de certa maneira, como apontou Türcke na questão da luta pelo espaço simbólico da cidade), uma caligrafia da resistência de se fazer valer politicamente?

F Zine – Nova publicação

A série já tinha sido publicada pela Agência Plano, mas agora ganha uma publicação impressa na iniciativa que é a zine IF. – em breve!

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