A última lição | #DiaDosAvós

Essa é uma história particular, intimista, sobre família, sobre minha avó. E também acerca do tempo e das memórias – muitas delas perdidas.


Antônia Jacovicz era revestida de uma simplicidade especial, daquelas de quem nasceu em meados da década de 1930, filha de um uma época e de um sistema. Seu nome é dito com carinho entre alguns familiares e amigos. Os filhos e netos se lembram de seus conselhos, que muitas vezes chegavam por meio de pequenos cuidados, de mimos ou de sacrifícios. Teceu a vida com uma alegria comedida, pois no rosto, nas mãos, denunciava que era tipo de mulher que no fundo carregava certo sofrimento calado. Minha avó, mas que na intensidade da relação e carinho, muitas vezes chamei de “mãe”.

A vida da “Dona Antônia” não teve lá suas generosidades. Sofriiida, como costumamos dizer. De tudo o que sabemos, as confissões rendem um roteiro de novela, tipo mexicana, com revelações e reviravoltas destinadas aos úlitmos episódios. Por isso, reservo aqui o título de história – daquelas que podem ser supridas, modificadas, acrescidas conforme o verniz do tempo. Mas, irie ater-me à última.

Aos últimos anos, o destino reservou dias mais penosos. Não basta a existência, a vida sempre reserva algo para o final. O que foi somada, por vezes é dimiuido, tal como a perda de um filho e, neste caso, algumas agruras da velhice e a complicação no estado de saúde. Amiúde, foram várias idas e vindas ao hospital. Em sua última estada no hospital, o espírito lutou, mas o corpo não aguentou. Partiu aos 82 anos. Deixou um profundo sentimento de saudade e uma última lição para mim.

No contexto familiar, registrei [fotografico] alguns momentos nesses últimos anos. E posso afirmar hoje que fui feliz em fazer isto. Algumas visitas, muitas fotos. Entretanto, houve muitos outros no qual não fiz um clichê sequer, ou simplesmente negligenciei. A natureza da coisa é que agora sinto falta dessas memórias imagéticas perdidas. Faltam-me as fotografias vernaculares, as “fotos comuns” ou mesmo aquelas sem pretensão que seriam guardadas num álbum de família – ou agora postadas nesse universo digital. Diante da falta das minhas fotos, tenho a sensação de ser um ente ausente. As poucas memórias que tenho na gaveta – ou no becapê do HD – comprovam isso. Você percebe? Você me entende?

Reencontro: Dona Antonia Jacovicz e sua primeira filha, encontrada cinquenta e poucos anos depois.

Então, de forma bem direta e resumida, a lição que aprendi depois – e que compartilho – é que vale sim aproveitar mais os momentos. E, também, guardá-los. Principalmente se na retórica do seu ofício, costuma afirmar que as fotografias, as memórias, são deveras importantes. Logo, trata-se de uma lição de vida e de sentido às imagens.

Caso eu fosse do tipo que oferece sugestões – e sou, na verdade – diria: fotografe intensamente. Há muitos momentos banais que podem passam despercebidos pela rotina, pela repetição, pelo teor do cotidiano, porém importantes no contexto de nossa vida – e lembrança depois. Viva e aproveite todos eles – pois o tempo passa rápido – e construa suas histórias, suas lembranças. E as imagens, como ressaltou Roland Barthes, no livro A Câmera Clara, trazem à existência essa experiência, para não dizer presença.

Fotografe com a câmera, com a mente e principalmente com o coração. Fotografe tudo”. Se não é a fotografia seu meio de expressão, faça uso das palavras, componha músicas, escreva uma história, arrisque um poema. Do banal ao mais importante acontecimento, o que vale é o que você vai poder acessar essas reminiscências e reviver depois. Construa uma ode a sua vida, à sua família.

E nesse contexto da câmera, do voltar o olhar nos bastidores da intimidade familiar, digo que para um fotógrafo; muitas vezes, a maneira de dizer algo é empunhando uma câmera. Quando nos falta palavras, quando não sabemos dizer algo assim de imediato, a câmeera intermedeia e expôe depois esse sentimento, esse sentido e tudo mais que faltou. Trocam-se poucas (ou nenhuma) palavras no ato fotográfico, mas o elogio (rara exceções) vem numa foto e sua respectiva história. Mais ou menos este caso.

O que você vai fazer com esse material, o tempo – e sua saudade – vai dizer. Com o tempo tudo vai ser uma possibilidade. O importante é que você terá muitas vivências para se lembrar, para rememorar e formas de homenagear. Então, para fechar, não se atenha apenas aos momentos derradeiros (ou espere algo importante). Fotografe o que você tem. Fotografe a sua, os seus. E não se esqueça dos avós. Não perca, pois você poderá não ter outra chance.

André Jacovicz Rodrigues (2013). In memorian de Antônia Jacovicz

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