Imagem, representação e intenção | #Teoria & Prática

Imagens contam histórias, narrativas, expõem vivências, assim como a cosntrução de uma representação (imago, imitatio), uma ideia, uma mensagem. Apesar da sua natureza indiciática, querendo ou não, impregnasse de intencionalidade, das subjetividades. É possível dizer que as imagens são construídas segundo alguns fins e intenções que podem ser reforço de algo, o choque (campanhas para ajudar crianças orfãs, guerra), estética e fruição. Mas, independentemente do uso, terão informação, memória ou formularão um discurso – direto ou indireto.

Diante da abrangência do tema, proponho um recorte específico nesse terreno amplo que é a intencionalidade e representação. Podemos inferir sobre o papel da fotografia (e do fotógrafo) diante dessa tarefa. Lembrando, ainda, dois aspectos: a importância da fotografia e sua importância de representar. Mas, também, as falhas em cumprir o papel de representar alguns grupos ou até mesmo em apresentar uma situação social. A realidade é complexa como diz por aí.

Vejamos, por exemplo, no caso de favelas, quantas vezes nos deparamos com imagens que associam a comunidade ao crime, à desordem e marginalização. Como se em bairros “nobres” não houvesse drogas, violências, tráfico. Então, diante do fluxo das imagens criadas e do reforço de esteriótipos, acontece a normatização e aceitação de que aquilo é assim. Desconstruir essas representação (do senso comum) leva tempo.

Percebo que algumas dessas imagens são feitas com discursos imagéticos normatizados, oriundos em clichês e senso comum. Pode-se observar isso em publicações variadas ou em imagens ilustrativas. Proponha a reflexão partindo de algumas experiências e vivências em trabalhos fotográficos que houve esse encontro (também confronto) da relação e jogo de fotografar, representar.

Em 2013, participei de algumas reportagens acerca da questão do problema da moradia e o crescimento de ocupações. Na época, visitei três comunidades (da grande região de Curitiba). Engraçado que uma retórica (velada) pré-estabelecida permeava a proposta. Termos como “cuidado”, “perigo”, “essa gente” ressoam tal como se fossemos adentrar numa zona de guerra. Assim como toda uma adequação no discurso político-ideológico enviesados que hoje estão ainda mais aceitos – “invasores”, “vagabundos”, “MST”, “vermelhos”, entre outros diversos …

Entretanto, a realidade sempre proporciona o maravilhamento. Uma coisa é a especulação, outra é a observação, verificação e comprovação. Justamente, nesse encontro de desencontros, a imagem mental genérica desmorona. Para repórteres e fotógrafos, mais acostumados a colocar os pés, ouvidos e olhos em campo, essa relação com a realidade (estranhamento) ocorre mais habitual e naturalmente. Contudo, para quem tinha uma imagem construída no discurso raso, a coisa é mais contraditória e surpreendente. Descobrir que as pessoas têm dificuldades, vontades, anseios, posicionamentos e sonhos (de um lar, por exemplo), uma cultura diferente da sua e que depende de inúmeros fatores e caudas, pode ser quase traumático para quem tem raízes distorcidas da realidade ou pouco costume da racionalidade diante de fatos sociais.

E adentrando nessa campo da representação visual, certas comunidades, setores e grupos de pessoas, por vezes, são interpretados por uma visão preconceituosa – sua história, realidades, condições sociais, valores e crenças ou mesmo o cotidiano. Ou até e até mesmo estigmatizantes, seguindo a ótica de atribuição de algo depreciativo ou negativo (ver Erving Goffman ). E olha que não me refeiro a grupos e sociedades distantes no espaço e tempo, falo acerca da atualidade. Peguemos, por exemplo, as mulheres que hoje são as principais mantenedoras (no sentido de renda, trabalho, liderança) dos lares brasileiros e ainda há quem se esforçe promover uma imagem equivocada.

Certamente essa questão da representação, lugar, ou aqui neste aspecto do campo visual, esbarra em diversos fatores e as razões poderiam render fios de debate passando por contextos de formação, posicionamentos (políticos ideológicos), grau de consciência – moral e ético – tipicidade como o tipo de veículo, linha editorial e afins. Enfim, toda aquele lado do mundo oposto de quem é o grupo, ou seja, de toda subjetiva desse outro que opera o instrumento. Se fosse considerar um fator resumidor, podesse dizer que a visão situada do fotógrafo (olhar dominante, subjetividade do autor) já é em si um ponto.

Mesmo em trabalhos de fotodocumentarismo, na fotografia contemporânea, abundam imagens de representação simplória, pura preocupação estética. Outro exemplo: isso ocorre nas fotos de protestos e manifestações, na representação de pessoas na imprensa convencional. Ora, a coisa toda torna-se mais a mentalidade do fotógrafo do que a da realidade propriamente.

Para saber, a coisa em si, esse equilíbrio de um fazer visual e uma realidade objetiva é deveras complicada. Ou como ressalta José de Souza Martins (2008), “a mera inquietação estética [artística] pode arruinar uma fotografia de temas sociais pungentes”. Porém o simples “denuncismo” e certa demagógia também.

Considero aqui inlcuir mais uma abordagem conceitual acerca dessa coisa da imagem e suas finalidades. Lúcia Santaella (1998), renomada pesquisadora e semióticista brasileira com forte influência da lógica peirceana (Charles Sanders Peirce), considera o universo das imagens em dois domínios: representações visuais e representação mental. Dicotomias interligadas. Segundo a pesquisadora, “não há imagens como representações visuais que não tenham surgido na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenhamalguma origem no mundo concreto dos objetos visuais” (1998, p. 15).

O que tudo isso quer dizer? Bem, para quem vê a imagem como uma linguagem – e também importante nos mais variados contextos – começa a surgir ponderações e até dúvidas.

Ocorre, por exemplo, quando temos de lidar com a representação de certos grupos, certas situações (noticiosas e informacionais) que vão ser publicadas. Posso dizer, pelo menos da minha parte, que há preocupação, pois os “fatores diversos, citado acima, entra em cena. É fácil acontecer angulações e deslizes conforme certos interesses, pois, é duro admitir, mas não há neutralidade. Logo, não se trata apenas de lidar com ética e moral ou mesmo simpatia, e sim coerência, honestidade e principalmente e racionalidade.

Temos de pensar, afinal, as pessoas são aquilo que achamos que elas são ou são aquilo que elas querem ser?

Nessas ocasiões, começamos a pensar ferramentas, procedimentos e saídas. Eventualmente quando faço um retrato emendo a frase: “Ótimo! Pronto, já fiz a foto clichê. Agora vamos fazer a foto que você (o retratado) quer fazer e se sente melhor”. Até que funciona! Nessas ficcionalidades da fotografia ilustrativa, torna-se comum idealizar situações (encenações) que não condizem substancialmente com a pessoa, personalidade ou mesmo a maneira que ela gostaria de ser representada. Nossa e quantas vezes eu errei!

Eu e o Outro
Um outro aspecto a considerar é o Outro. Ou seja, como pontua Andé Rouillé, esse dialágo e dinâmica. Quantas vezes olhamos o Outro e medimos conforme nossa base de medida, nossos valores, conhecimos préviso, imagens embutidas, buscando uma imagem distorcida e sem o devido conhecimento ou racionalização. Ou ainda, olhamos os grupos apenas como modelos. Rouillé cita o trabalho de Robert Frank como apenas fotografados em status de objeto (ROUILLÉ, p. 178).

Sendo assim, num certo aspecto, digamos até comprometido, interpretar abertamente e mesmo desmistificar elementos da sociedade, pode ser (ou é) papel dos fotógrafos, artistas, pensadores, escritores. Pelo menos para alguns com certo engajamento. Esforçar-se para entender o “diferente”, para se colocar no lugar do outro. Em tempos de tanta indiferença, a ferramenta da alteridade é um caminho. Tomo a liberdade de dizer entender o mundo e tranformá-lo pelo sentido do outro. Fácil, claro que não! Pois, trata-se de Outro no outro lado.

Logo, fora toda essa questão mais pragmática que diz respeito à fotografia, a sua estética e mesmo interesses (engajados ou não), coincide com um olhar atento que, de repente, nasce ou se desenvolve ao longo do tempo. São preocupações que surgem ao longo da história da fotografia (de forma geral) e do fótografo enquanto no contexto.

Algo que Rouillé (2009) enumera como a reportagem dialógica. “A própria maneira de testemunhar muda. Não consiste em reproduzir o visível, mas em tornar visível” (ROUILLÉ, p. 184).

Aqui é onde eu acredito que entra essa coisa de alteridade? Bem, digamos que antes de tecer críticas (com base no achismo) ou mesmo criar uma estética simplória, vale o esfoço de ver o outro segundo a lógica dele. É um bom começo.

Vou fechar por aqui. O assunto é interessante e renderia mais prolixidade da minha parte, especialmente devido à relevância da questão no que diz respeito ao uso das imagens para evitar a construção de um discurso negativo (engajamento ou jornalismo construtivo). “A fotografia é um dos componentes do funcionamento desta sociedade imensamente visual e intensamente dependente da imagem”, diz José de Souza Martins. “Mas, obviamente, não é ela o melhor retrato da sociedade.” Vale para pensar.

Fica a dica
No campo do fotojornalismo há trabalhos e pesquisas nesse sentido. Exemplo como imagens (cobertura de guerras) são usadas como narrativas elaboradas de representação com foco no papel da guerra, a proteção de cívis, “missão de paz”, a esteriotipação de elementos da guerra – os inimigos, por exemplo – entre outros da imprensa convencional como o morador do morro, indígenas, mazelas, mulher, e assim por diante. A revista acadêmica “Discursos Fotográficos” eventualmente traz artigos nesse contexto de estudo da representação e caracterização.

Na ordem de projetos fotográfico deixo como sugestão dar uma olhada no trabalho do fotógrafo Among You, do fotógrafo M’hammed Kilito. O projeto faz um recofinguração do que é o estado da juventude em Marrocos, além de uma documentação de como a predeterminação social influencia – ou pode ser quebrada. Abordando como esses jovens estão à margem e estão encontrando um caminho na sociedade.

Vou deixar um exercício-reflexão
Pesquise um tema específico. Pode ser uma pesquisa acerca da sua cidade natal, por exemplo. Veja no Google Imagens quais as imagens que são elencadas em relação ao tema da pesquisa. Elas condizem com o que é? São representações construídas, distorcidas. A sua cidade é mais do que apresenta as imagens publicitárias? Quantas cidades (ou representações) da sua cidade existe aí na sua cidade? Conta aí!

2 comentários

    • Legal Lara!! Esse é um exercício bem interessante e pode ser explorado, inclusive, em outras áreas. A força da construção imagética é gigantesca. Não que isso seja de todo negativo, o sentido aqui não é esse. Mas, às vezes, entra somente na retórica construída, publicitárias, excludente. Por exemplo, Curitiba sempre levou – e gabou-se – de ser uma cidade “européia”. Mas, será que isso é verdade, condiz? Não, porque uma cidade é multicultural, é multipla, somos mais que uma nomenclatura de biotipo ou idealização.

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