Do Arquivo | Um sonho floresce na Primavera

Participei de um conjunto de pautas que abordavam a questão da moradia como tema e problema central, mas também sua correlação com as ocupações e o crescimento de vilas fora do planejamento urbano. Visitamos três locais em Curitiba, entre eles a ocupação Primavera com cerca de 380 barracos e mais de 1,5 mil pessoas.

O assunto é complexo e aborda vários aspectos que vão do social, estrutural, econômico e até mesmo o ideológico. Para tanto, a abordagem é cuidadosa. Atenta-se até para os termos ocupação-invasão e afins. Pelo menos da parte dos jornalistas que se expõe em campo para, verdadeiramente escutar as pessoas, analisar o problema de forma ampla e não tão enviesada. Afinal, veículos de comunicação são empresas. Ladinos, às vezes, usam todo o escopo da história para outro contexto e viés mais político-ideologico-financeiro do jornal naquele momento. Sim, isso existe.

Cada pessoa fotografada naqueles projetos de casa, naqueles casebres com os fios de luz à mostra, com as nesgas de luz entrando pelos buracos nas paredes, alimentam uma coisa inerente a nós todos. O sonho.

A percepção se abre quando você burila toda a ladainha das ideologias (que cada parte acredita ser a melhor, ter a merda da solução toda). Ao descortinar, você é levado ao campo da realidade humana, foge à problematização retórica e percebe algo do cerne dos desejos, dos anseios, dos sonhos. E no caso deste caso, dessas pessoas, o sonho de uma casa para chamar de lar. Não obstante, você também percebe o quanto estamos em espectros diferentes neste lugar chamando mundo. Julgando uns aos outros, inventando asneiras, vasos sanitários de ouro, máscaras contra a Covid de grife, discursos políticos e tudo mais. Separados sabe por quem ou pelo quê. Mas, a natureza da busca, na real, são as mesmas.

De repente, consigo ver isso, porque morei num casebre, não muito diferente desses. Dormíamos em cinco num cômodo. Não tinha água encanada, a luz era emprestada de um vizinho – e bote fé, não tínhamos luz porque não tinha dinheiro suficiente para comprar o postinho e o relógio. Um pouco da comida era plantada. Antes do antes de fechar os olhos e ir para um sonho surreal, sonhávamos acordado com algo melhor. Acho que todo mundo é assim.

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