Single shot | Mimetização do novo normal

A pandemia trouxe mudanças, entre elas as comportamentais. O tal ‘novo normal’ já foi incorporado no dia a dia. E não somente para os adultos, as crianças também vão assimilando.

O uso da máscara é uma delas. O Leon – meu filho – mesmo nos seus três e poucos anos, vai para a rua usando-a sem birras infantis. Ao nos observar usando por esses longos meses, assimilou que era algo normal. E agora vejo outras atitudes. Num dia qualquer da nossa permanência em casa, uma de suas brincadeiras chamou-me atenção.

A brincadeira é algo que emerge num estado totalmente imaginativo. Um poder fantasioso que aos poucos vamos perdendo para a realidade chamada vida. Eis um dos motivos que adoro ver (e brincar) com ele. É uma maneira de retorno, de tentar lembrar este estado.

Naquele dia, ele brincou de ir para o “trabaio”, ao chegar em casa disse “ sujo”. Simulou o “banho” e, por fim, pediu-me o “alquinho” – algo como um diminutivo de álcool – e começou a dar a geral na motoca.

O mundo das coisas
As crianças são muito atraídas por essas coisas do mundo, por esses fragmentos da realidade, esses resíduos da realidade, de toda uma cultura que os rodeiam (SEKKEL, 2015). E nesse ponto específico, uma mimetização do nosso comportamento, das nossas novas rotinas, dessas ‘normalidades’ adquiridas e cuidados que adotamos.

Essa reflexão que no fundo faz parte de estudo de Walter Benjamin, que aponta a “essência” de toda brincadeira a repetição. “A essência do brincar não é ‘fazer como se’, mas um ‘fazer sempre de novo’, transformação da experiência mais como-vente em hábito.” Benjamin (2002, pg.102, apud SEKKEL, 2015)¹.

Embora esse fato da repetição ocorra, acho mágico o fato da criança sempre se tornar algo para brincar. Quando essa mimetização extrapola a simples repetição. Ou seja, como apontou o teórico, a criança se torna algo ao brincar. Envolve-se de tal maneira, que se torna além da coisa (brinquedos).

1 – SEKKEL, C. MARIE. O brincar e a invenção do mundo em Walter Benjamin e Donald Winnicott. Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano. São Paulo, SP, 2015. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/pusp/v27n1/1678-5177-pusp-27-01-00086.pdf&gt;.

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