Muitas imagens e pouca fotografia

Pensar sobre a natureza atual (e futura) da Fotografia é primordial para quem pretende grifar o título fotógrafo no seu sentido mais stricto. Principalmente no que diz respeito ao que pode ser fotografia nesses tempos de interseção, com pictures e imagens abundantes.

Recebi pela manhã, os parabéns pelo Dia Internacional da Fotografia (19/8). Numa espécie de correlação de algo que fiz (enquanto fotógrafo) com algo tão grande e complexo que é a Fotografia. Não me senti contemplado, na real, quase um indigno, um pária, pois, muito do que fiz não é fotografia – e nem virá a ser com o verniz do tempo. Simples assim.

Há diferenças consideraveis em termos do que é fotografia e fotografia. Sebastião Salgado chegou a afirmar que as imagens resultantes de smartphones não são fotografias. Que pode ser qualquer outra coisa, menos a fotografia no sentido que ele entende e classifica de noção de ser e uso da fotografia. Certamente, dependendo da forma que é feita o encaixe do que vem a ser a fotografia – ou melhor, foi, é e será – não somente históricamente falando. Principalmente se tu considerar essa interseção entre algo que flutua como bem cultural, produção artística e produto em busca de capital.

Apesar do dito abrir um leque proporcionalmente grande para o pensar sobre fotografia, mecanismo de produção de imagens, aparatos e até mesmo intencionalidade, não é essa a intenção primeira. A questão migra para um observação mais específica (pessoalizada) de produção de muitas imagens, históricamente localizada e como meio ainda não superado (históricamente e conceitualmente) como forma de fazer imagens. Esse é o ponto de partida, onde engesso a questão e parto para uma afirmação: há pouca fotografia consistente em si. Principalmente considerando uma abordagem mais objetiva que pode ir da produção à intenção intenção. De forma mais objetiva, há muito pictures – imagens açucaradas – e pouca fotografia propriamente.

A minha intenção não recai pedantismo ou pressunção, mas apenas um convite à reflexão. Afinal, como mencionei anteriromente, muito do que fiz sequer passa perto de ser algo de fotografia mais apurada no sentido romântico – e até sectário do termo. Alguma coisa naufraga entre o registro sem história ou até mesmo conteúdo de uma realidade objetva que fica aprisionada à etérea tentativa de algo mais subjetivado e elevado conceitualmente. Sei separar isso e acho interessante nós começarmos a pensar sobre isso.

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Precisamos pensar a fotografia além do seu ofício, da maneira rudimentar de registro natural, mas como um bem e produto cultural. Aliás, é justamente nesse ponto que há certa deficiência. Há produção de imagens, reprodução de técnicas, resumos de vivências, repetições; porém, muito poucas abordagens da natureza da fotografia enquanto linguagem, narrativa e ferramenta de conhecimento.

Vivemos uma hiperprodução e exposição de imagens, na qual muitas são meros pictures, somente fragmentos de tempo, apenas a funcionalibilidade do aparato com um ato (fotográfico) quase involuntário. Falta reflexão e até mesmo interesse para algo venha a ser a fotografia num sentido mais stricto e com consciência.

Acredito que isso vai passar muito pelo fator formação do fotógrafo [e deve]. Também numa boa dose de discussão sobre intencionalidade e ainda, não poderemos escapar das teorias sobre o que vem depois – ou se já veio – pós-fotografia. Ampliação efetiva e gradual do entendimento e papel da fotografia (e do fotógrafo) enquanto meio e linguagem. Sem esquecer também de quem consome, aprecia e pretende ter a fotografia enquanto bem.

Logo, podemos inferir que mesmo diante de um momento de produção de banalidades, de mimetizações e mera imagens massivas, vale ressaltar que pode ser sim um processo de interseção, entre o comum e um processo de amplitude coletiva – democratização. Dizer que o período é mero tempo de banalização soa superficial e até mesmo elitista simplório. O debate sobre isso é mais amplo, pois o entendimento pode superar o encaixe em certos termos. Da banalidade à democratização há um longo refletir com diversas nuances navegando num colóquio do que é a fotografia à suas mais diversas formas – híbridas, físicas, transarstísticas, computacionais, entre outras. Por fim, vale dizer que precisamos sim falar, pensar e fazer fotografia em busca de um caminho para informação visual de qualidade, ainda mais defendendo aquele velho (ainda válido) conceito de Fotografia. Contudo, já podemos ir nos afastando de obviedades, para proporcionar reflexão mais contemporâneas ou futuras. Enfim, para termos a chance de dizer que fizemos fotografias, precisos saber o que fizemos, o que temos feito e o que vamos fazer. E é nisso que devemos pensar o papel do fotógrafo.

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