Os Desafios Dos [fotógrafos] Iniciantes – coisas que você precisa saber.

“A fotografia sempre me espanta, com um espanto que dura e se renova, inesgotavelmente”. A frase atribuída a Roland Barthes diz respeito não necessariamente ao ato fotográfico e sim ao poder que emana da foto. Sim, a fotografia tem esse poder. E podemos ir um pouco além, pois causa efeito em quem a consome e a quem a produz. Ademais, convenhamos, mesmo em tempos de mega produção de imagens (pictures), a fotografia ainda continua atrativa e convidativa. Ainda mantém sua magia e encantamento enquanto ofício e expressão criativa.

Esse é o lado bom. Quase filosófico da questão. Mas, fora a literatura, a realidade é um pouco menos romântica. Em especial para quem está dando os primeiros passos. É um desafio atrás do outro. Diferentemente do que se pensa, a fotografia exige muito. A coisa toda é extremamente difícil e, às vezes, até desanimadora.

No tocante do assunto posso apontar três bem pontuais. A escolha – e forma de adquirir – os equipamentos até a inserção (e estabilidade – se é que isso existe) no mercado.

Início do Início
Dar os primeiros passos em qualquer profissão tem lá suas agruras. Na fotografia não seria diferente. Foi assim no tempo do negativo e vai continuar sendo.

Logo de cara o sujeito enfrenta a realidade econômica. Ou seja, para começar vai ter de comprar uma câmera – ganhar, ser sorteado, herdar, enfim.. . Uma novela! Eu não contei com a opção “herdar”, “ser sorteado” ou “ganhar”. Pelo contrário, tive de ralar uns 3 anos num trabalho para juntar recursos para comprar a minha segunda câmera. A primeira foi a Kalashnikov das câmeras. Ou melhor, uma Zenit porreta. Da linha russa na qual eu adquiri fazendo rolo (troca) num aparelho de som.

Mesmo com a grana em mãos, você ainda precisa saber investir e comprar o melhor equipamento custo benefício. Outro drama. Respondi muita gente que me perguntava sobre qual equipamento comprar, qual a melhor câmera para isso, qual lente para aquilo e afins.

Fase que eu compreendo bem. Embora, ler seja extremante válida e produtiva, quando você ouve de alguém que tem experiências e vivências na áreas, mesmo que seja para corroborar ou desmistificar o que você já leu/viu. O véu cai e tudo fica mais nitído.

Certa vez, num café, um fotógrafo que cobria um envonto nas redondezas sentou ao meu lado. Como eu estava na gana de comprar uma câmera melhor para entrar no mercado, arrisquei a conversa e pedi uma dica. O sujeito, numa fala quase incompreensível devido ao ‘pão de queijo’ que estufava as bochechas, disse que “não poderia me ajudar, pois só usava equipamentos muito caros”. Naquele momento descobri com o que eu teria de lidar profissionalmente.

Passada a fase tecnocrática, logo em seguida você se depara com a fase que eu acho mais complicata. A do dilema. Ou seja, a falta de experiência e poucos trabalhos contundentes.

Você é mais um
Acumulando um monte de fotos ‘autorais’ e, de repente, alguns trabalhos feitos, você ainda é um neófito. Está iniciado, mas ainda não é aceito ou sequer se sente seguro. Sim, existe isso.

Um problema inerente em muitas categorias (e latente na fotografia) é o pouco coletivismo (só isso dá mais um outro artigo). Certamente mudou bastante desde o tempo do dito cujo do pão de queijo, só que essa relação entre quem tem experiência – anos de carreira ou mesmo sucesso – ainda acontece.

Quando iniciei no fotojornalismo tive a sensação que precisava ser aceito. Para falar a verdade eu estava certo. Quando você coloca os pés e a câmera na disputa de mercado, é fácil encontrar quem te esnoba, quem te ignora e, por vezes, até te sacaneie. Passei por todas essas merdas. Esse tipo de coisa, que faz você pensar ou a coisa é uma bosta só – business – ou essa galera é muito insegura. Cara, só que se você se importar com isso, você não segue adiante.

Bem, não é preciso salientar que não é para generalizar. Tive um outro que foi companheiro, que deu dicas e caminhos – alguns pagando. Percebi que a fotografia sempre foi assim, em especial no fotojornalismo que é muito restrito, pouca demanda e o mercado é feroz.

Depois de caminhar um trecho do percurso, sabia que uma hora eu estaria no lugar ‘deles’. Ou seja, teria alguma experiência e iria trombar alguém começando. Sabe o que fiz? Bem, geralmente a genta acaba reproduzindo o modus operandi daquilo que está inserido. Seja no jargão e até no comportamento. Mas, a experiência com o colega do lá no café ensinou. Decidi que nunca seria aquilo. Sempre tive paciência, conversei, ensinei, dei dicas de trabalho, de mercado – não sou egoísta – [ Você é comunista? – diria os fãs do Trimagazi ].

Claro, não é toda hora que a gente está “inspirado a mentor”, principalmente quando as perguntas são sobre . Entretanto, quem me conhece sabe que gosto de compartilhar conhecimento.

O caminho das pedras
Amigo, simplesmente não há atalhos. Qualquer área de conhecimento tem de empenhar esforço, dedicação e aprimoramento de conhecimentos gerais e específicos. Você vai cair, vai perder, vai vencer também. E prepare-se para todas. O resto só a jornada ensina.

A boa nova é que atualmente a gama de pessoas (e recursos) falando sobre fotografia, (blogs, sites, grupos, encontros, escolas, coachees, entre outros canais). Basta buscar. Tudo pronto, meio que mastigado na internet. Bem ajustado o custo sai baixo. Entretanto, para aprender é preciso saber aprender.

Empenhei tempo e esforços para montar um portfolio, e quando montei não encontrava ninguém para fazer uma leitura (crítica). Até que certa certa vez, enquanto trabalhava numa loja de câmeras, atendi um fotógrafo profissional, professor, que se dispos a dar uma olhada. Ele olhou e tascou: “tá uma bosta”.

Não acredito em crítica negativa ou positiva, apenas em crítica. Quem transforma em algo construtivo é você. Então, perguntei o por quê? Ele disse que eu sabia fotografar tecnicamente bem. Um bom operador de equipamento. O que a gente chama hoje de “apertador de botão”. Desenrolamos a conversa e ele me indicou um livro para ler. Abriu minha mente e visão em relação à linguagem e narrativa fotográfica. De lá para cá, não parei mais.  Sem ele me dando a real, eu estaria apertando botão e achando que fazia fotografia.

Duas ou três coisas que poderiam ter me dito:

• Sim, peça para alguém opinar sobre seu trabalho. Não tenha receio de receber críticas.

• Leia, leia e leia muito sobre fotografia – em especial linguagem e narrativa

• Aproveite os canais de aprendizagem – Youtube, cursos, aulas, palestras, etc. Não menospreze nada. Anote tudo e tire dúvidas com alguém.

• Pense uma estratégia. Pode ser por ano, por conquista. Isto, diga a si mesmo onde quer chegar e como chegar lá vai ficar visível.

• Todo mundo tem talento (s). No que diz respeito à fotografia, encontre suas habilidades e área de interesse. Sério, isso é muito importante. Dei aula e vi alunos mostrando trabalhos extremanete bons, que só precisavam ser lapidados.

• Coisa imprencíndivel. Aprenda a vender. Entenda que você é uma empresa, uma marca e precisa de mecanismos para competir. Aprenda sobre administração, vendas, marketing e tudo mais que possa ser usado em benefício do seu trabalho.

• Seja realista, mas todo cuidado para não ficar no vale da lamentação e murmúria. Sim o mercardo não é dos melhores, mas também não é o fim. Fique longe dos bostas.

• A questão do equipamento pode ser resolvida da seguinte forma. O equipamento bom é que você tem hoje. Explore e faça o melhor com ele.

• Uma coisa importante: tenha um plano B. Para trabalho e de recursos financeiros. Não dependa só da fotografia. Os dias ruins machucam, fere sua credibilidade para com quem está próximo de você. Não corra esse risco.

A iniciativa do Café & Fotografia foi um uma proposta no sentido de unir fotógrafos mais experientes e novatos para uma troca e networking. Realizamos bate papos, encontros, oficinas, workshops.


Conclusão

Não vai ser como era antes, pois tudo envolve ‘oferta e procura’. Como ouvi de um coelga: “como cobrar por uma coisa que estão dando de graça”. Até pode ser, mas tudo de agora em diante vai depender da abordagem. Não está fácil, mas sempre há uma brecha para os engajados e criativos.

E não engane com essa coisa de a fotografia ser extremamente comum, quase na gratuidade. Há muita coisa instantânea por aí, mas uma fotografia de qualidade sempre vai ter valor

A fotografia não é apenas o aparato, o mecânismo ou mesmo o simples registro. Quem sabe explorar e inserir valor (objetivo e subjetivo) sempre vai ter espaço e ser reconhecido. Tal como assistir um filme de uma história que você já conhece, mas o roteiro pode te surpreender.

Por fim, mesmo que você não vá trabalhar exclusivamente com a fotografia e tenha ela como um hobby, passatempo ou expressão artística, haja da mesma maneira. E escreve uma boa história com suas fotos.

3 comentários

  1. Ótimo artigo! 👏🏻👏🏻👏🏻

    Você poderia fazer um com este livro que lhe indicaram, e outros sobre linguagem e narrativa fotográfica?
    Pois assim como você já domino muito a técnica, pois eh o conteúdo mais disponível na internet, mas tenho dificuldade em encontrar material sobre linguagem

    Curtido por 1 pessoa

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