Somos um número apenas [?]

Somos um número, ponderou a enigmática, convidativa e um tanto filosofica Clarice Lispector num de seus textos – de mesmo título. Disse que tudo acaba ou vira número. E que era para termos o devido cuidado. Do mais banal como a numeração dos documentos ao mais pessoal que é ser reconhecido só pelo número. Temos um número mesmo antes do nascimento e curiosamente também depois de morte, afinal na certidão de óbito e na lápide tascam um número. Mas, ela não se referia a essa coisa pragmática númerica, mas sim a reflexão acerca do uso enquanto banalidade para essa coisa “desumanizante”, presente nesta coisa chamada modernidade.

Clarice usa essa coisa simbolica dos números para falar da falta de gente que somos. Não de uma falta de gente em pessoas, mas da falta do sentimento humano que nos une como sendo espécie humana. Fala da falta de amor, de perda da empatia, da classificação fria. Só mais uma pessoa que morreu! Carrega uma dose de reflexão do ontem e para esses tempos virulentos de polarização e do ódio gratuito.

Numa vasculhada nos becapês encontrei uma trabalho no qual usei um trecho dessa crônica. Fiz a foto num daqueles passeios ao cemitério. Aquelas interpretações visuais dos tempos de iniciante na fotografia. Não sei dizer o porquê, mas achei pertinente para esse momento – ou para abrir essa seção.

Desde a publicação do texto da nobre Clarice, muita coisa mudou. Continuamos a ser número. Aliás, até evoluiu. Agora somos mais do que números: somos uma matemática mais avançada. Somos memes, somos avatares, somos robôs (bots), somos perfis, somos fake. Aff! Somos corrente no WhatsZap. Somos ódio disfarçado em opinião – uns nem disfarçam.

Num rápido passeio pelas redes sociais o efeito negativo de ser número continua a evoluir. A falta de empatia, indiferença com o Outro, agora é quantificada em opiniões racistas, homofóbicas, discursos incoerentes, anti-ciência. A matemática exponencial da ignorância.

Dia desses lendo as sugestões de uma editora de fotografia, ela comentou sobre as fotos (choque) de crianças usadas na campanhas – como Médicos Sem Fronteiras (MSF), entre outras – e como as fotos não tocavam mais. Ninguém liga mais para as criancinhas mortas ou morrendo de fome, ou sem remédios básicos para tratar as doenças infantis. Isso não choca porque é distante e, como li, trata-se de um problema deles e não nosso. As fotos de guerra se tornaram tão banais como as fotos de guerra de filmes de ficção. Na rua, ouvi o seguinte: que os chineses deveriam pagar [morrer] por ter criado esse vírus – Covid-19”. Sério!

Bem, os números não tem culpa, pois são apenas o simbólico de algo que já acomete os sapiens há tempos remotos. Como a escritora usou bem, eles apenas escondem algo que precisamos enfrentar. Melhor, teremos de entender, pois parece que vivemos retrocedendo no que diz respeito a ser gente – por mais que o tempo passe – em números.

Por fim, no final dessa jornada chamada vida, inevitavelmente teremos um número. Não há como escapar daquele na certidão de óbito ou no jazigo do cemitério. Mas, que nesse momento, em tempos de pandemia, a gente entenda que precisamos ser gente. Em todos os sentidos. [continua…]

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