Bem-vindo à era da fotografia [de alto padrão] nos celulares.

Quando a filosofia comercial da Kodak foi sintetizada no slogan “You press the button, we do the rest”, uma nova era (e modo de fotografar) foi lançado. Novos produtos e processos alçaram a fotografia em outro patamar de uso e acessbilidade. Uma grande revolução (ou pelo menos evolução) como sugere o teórico português Jorge Pedro Sousa. Dezenas de anos seguintes, a fotografia não parou de evoluir e tornar instrumento de massa. O sistema digital surgiu e a fotografia transpôs aparato fotográfico tradicional e foi alocada nos aparelhos celulares. Um novo modo para ver e fotografar o mundo.

Na atualidade, difícil uma pessoa não possuir um aparelho de celular. E no âmbito da fotografia, o smartphone deu o reforço no sentido do registro casual, da fotografia descomprometida. Impulsionou (ou foi sustentada) pelas redes sociais, pela necessidade constante de aparecer (narcisismo coletivo) inaugurou a Life of Pictures”. Tudo tornou-se fotografável.

Diante de uma coisa tão popular (e necessária, paradoxalmente falando) como a fotografia, a indústria relacionada ao mercado de aparelhos celulares investe e torna cada vez mais a possibilidade fotográfica – com apelo ao alto padrão de qualidade – realidade e uma experiência acessível. Vende-se celulares priorizando a criação de imagens e não mais a telefonia.

Fotógrafos entusiastas, amadores, e mesmo os profissionais, têm explorado cada vez mais as facilidades deste sistema.

[ mercado dos celulares ]
A indústria dos celulares, e em especial as dos smartphones, cresceu exponencialmente e obteve lugar garantido com objeto-necessidade moderna. Seja aqui ou lá em Hong Kong, um celular estará intermediando algum tidpo de ação. Principalmente no que diz respetio à comunicação. Para termos uma base, segundo a “Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas”, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), o Brasil possui cerca de 230 milhões de aparelhos ativos.

Ademais, o avanço tecnológico e inovações fortaleceu o uso do aparelho em multiplas funções, e a possibilidade de criação de imagens (fotos e vídeos) transformou-se num dos grandes recursos disponibilizados nos aparelhos. Aliás, quase ninguém mais usa o celular para falar (ligar) propriamente.

[ tecnologia estimula o processo ] 
Os smarphones se tornaram uma verdadeira necessidade moderna. Além dos aplicativos e acesso rápido às redes sociais, os aparelhos ganharam câmeras e recursos que propiciaram o uso enquanto objeto de captura de imagens com eficiência e qualidade.

Para ilustrar, temos celulares que investiram em lentes e parcerias para produzir a parte óptica, por exemplo. Entre eles, o Huawei P30 Pro com sistema quádruplo de lentes Leica (Leica Quad Camera System) promete uma super câmera para “reescreva as regras da fotografia”.

Além dos kits de lentes integradas para celulares o fator resolução também fez a diferença. Os celulares também entraram na guerra dos megapixels e começaram a disponibilizar mais resolução e, consequentemente, qualidade. Agora, tudo indica que podemos estar no período da briga da mega-resolução.

A também chinesa Xiaomi em parceria com a Samsung anunciaram uma inovação para as próximas gerações de smartphones. As duas se uniram, segundo relata o site Peta Pixel, para lançar um smartphone com um sensor de 12030 X 9024. Sim, 108 MP

A inovação tanto para câmeras quanto para smartphones não para.

[ Mobilyphotography é fotografia? ] 
“Imagens de celular não são fotografia”, disse o lendário fotógrafo Sebastião Salgado. Segundo o fotógrafo, trata-se de uma forma de linguagem de comunicação e não a fotografia no sentido stricto.

A declaração soa um tanto mais como frase de efeito do que realmente é apresentado a esse contexto. Num sentido mais específico, sim, a mobiliephotography não tem aquela parcela substancial de credibilidade, visto a estrutura e história das marcas e empresas específicas do setor. Não obstante, vale lembrar que a fotografia em si é uma arte ampla e com vários campos de atuação, com ferramentas (mecanismos de captura) diversos, sejam câmeras analógicas, digitais, de médio formato, 35mm e até mesmo processos rudimentares como o pinhole. O que vale é justamente a materialização da representação visual. Questão que o próprio Sebastião ressalta quando falou sobre esse tema.

Outro ícone, o cineasta Wim Wender, também teceu observações ao sistema de imagens produzidas por celulares. Entretanto, não deixou de ressaltar o viés de ter uma fotografia vernácular e sem o empreendimento do aparato – ou pelo menos sua simplificação. Ou seja, o quanto a fotografia possibilitada pelo celular assumiu a vez das câmeras compactas.

Destaco um outro ponto essencial e concomitante a essa coisa do mecanismo – o aparelho/aparato. Fotografia tem a sua linguagem. Elementos tão ressaltados por teóricos como Ivan Lima, Milton Guran e até mesmo o Jorge Pedro Sousa com relação à linguagem fotojornalística. A câmera, seja ela qual for, é apenas o meio para tornar representativo o recorte da realidade. Por mais que o câmera tenha peso no debate mais profundo e teórico na abordagem da narrativa, a natureza da imagem vai estar fortemente ligada ao olhar/experiências e todo um referêncial oriundos de quem faz a fotografia ou toma a imagem propriamente. De resto só há o mecanismo no meio do caminho entre as ideias, a coisa em si e, posteriormente, sua materialização – mesmo que virtual.

[ fotógrafos e projetos ]
Fotografia ou não, e filosofias à parte, no sentido prático há muita gente explorando de forma extremamente eficiente e com maestria as facilidades e recursos da fotografia smartphone. Embora a mobilephotography tenha sido vista com olhares tortos e até certo descredito no métier dos profissionais, o fato é que agora ela está consolidade e a cada momento ganha mais escopo. Seja em trabalhos realizados por fotógrafos, nos projetos específicos, pela propagação de concursos de mobilephoto como o consolidado iPhone Photography Awards (IPPAWARDS), entre outras iniciativas como livros ou portfólios. Vejamos alguns exemplos.

O trabalho realizado pela fotógrafa Luisa Dorr para a revista Times foi feito inteiramente com um celular iPhone. Luisa clicou mulheres pioneiras e emendou 12 capas diferentes para a famosa revista. O projeto intiulado Firsts, na epóca, ancorado pela notoriedade das mulheres fotografadas, ganhou destaque pelo fato de ter sido proposto e feito com o elular.

“Fotografar com o telefone não é mais fácil. É preciso pensar na foto da mesma forma, compor e pensar a luz. Me sinto mais leve, embora trabalhe com a câmera também. Depois da Time, mais publicações me permitiram usar o iPhone, e acho que isso é um bom sinal: deixar que o fotógrafo use o equipamento que quiser para contar a história.”, disse ela em entrevista à revista Trip.

David Guttenfelder, renomado fotógrafo atuante na National Geography, é uma referência em projeto com smartphone. Além de alimentar sua conta no Instagram somente com fotos de celular captadas na Coreia do Norte, Japão e outros locais no qual trabalha, chama atenção para um trabalho intitulado “American Phoneographs”. Impecável e de extremo referêncial – de projetos que nascem desde o contexto do The American, de Robert Frank.

Num âmbito mais próximo, destaco o projeto do fotógrafo Nilo Biazetto Neto, da escola Portfólio de Fotografia. Biazetto produziu uma série muito plástica, bonita e cheia de cor, utilizando seu iPhone. Intitulada “Primárias”, o trabalho ganhou uma exposição e um belíssimo livro.

André Feltes, fotógrafo com bagagem no fotojornalismo, desenvolve um trabalho intitulado “mobgrafia”. A desenvoltura em utilizar o aparelho combinada com a linguagem streetphoto dá vitalidade e ele cria ótimas imagens em ensaios como “Na Rua I,II e III”, “Dias Assim” e “A cor dos dias”. Destaque para as fotografia em preto e branco.

O fotógrafo curitibano Daniel Castellano diz que não deixa de fazer uma foto por não ter uma câmera em mãos. Aliás, parcela das suas fotos, principalmente as feitas para o storie (Instagram) são tomadas de celular. Recentemente ele vendeu uma print que foi feita com o celular. A foto suportou uma impressão 40×40 cm (com crop na edição) sem problemas.

A ideia da qualidade vai um pouco além também da construção da imagem. Esses casos acima ilustram sobremaneira a linguagem, técnica e desenvoltura pra aproveitar a praticidade mobile. E, por conseguinte, dar um vazão ao que se fotografa, transformando isso num livro, impressão , projeto, exposição, etc.

[ conclusão ] 
Infere-se que a mobilephotography está mais consolidade e alça novos patamares. Fatores de mercado e tecnológicos consolidaram a questão – tais como em outros períodos acerca da fotografia no qual inovações e invenções fortaleceram a dissiminação do meio. A habilidade técnica e artística de profissionais (e mesmo entusiastas) que utilizam smartphones para produzir imagens (single shots ou mesmo projetos de mais escopo) proporciona riqueza e fotografia de alto padrão com os celulares.

Outra ponderação que não posso deixar de observar (não mencionada porque vale uma apuração mais específica) é a possibilidade da fotografia mobile ser inclusiva na prática fotográfica. A acessibilidade do ter um aparelho digital (economicamente) e a facilidade de uso (automatização), favorece a prática da fotografia (ou pelo menos uma iniciação) de pessoas mais pessoas mais carentes ou que não teriam possibilidade de viabilizar a compra de câmeras para fotografar.

Também vale lembrar que algumas imagens produzidas por celulares, pelo menos em comerciais e propagandas, foram derrubadas ou desmascaradas. 

Por fim, acredito os smartphones proporcionam uma nova forma, uma outra proposta na prática fotográfica. Tal como foi a disponibilidade do 35mm diante des outros formatos na época. Modus que você pode aproveitar da forma que quiser. Na forma mais despretensiosa ou mais elabora. Fica ao seu critério, criatividade e objetivo.


* “Você aperta o botão, a gente faz o resto”.
** Livro: Uma história crítica do fotojornalismo ocidental – Jorge Pedro Sousa
*** Livro: A Filosófia da Caixa Preta – Vilém Flusser.


 

 


 

Tem algum comentário a respeito. Acredita que a mobilephotography é fotografia no sentido que todos conhecem. Ou apenas uma modalidade para produzir imagens comuns? Considera o fotógrafo fundamental para tornar a fotografia em “Fotografia”. Comentários são bem-vindos.

Fiquem bem e até o próximo!


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