Capa!

O fotojornalismo [de jornal] tem muitas anedotas. Uma delas diz que o repórter fotográfico encara diariamente um concurso fotográfico. No impresso, seja ele revista ou jornal, cada espacinho é valoroso e disputado. As editorias, os fatos propriamente, concorrem para serem transformados em notícias naquelas afamadas colunas. Um campeonato diário na redação na qual incide vários fatores para vencer. Nesse mágico processo, os fotógrafos também encaram esse disputa, pois uma boa foto corrobora força à matéria e, por vezes, angaria um espaço generoso – aqui temos uma outra do jargão, no qual uma boa foto ajuda um texto ruim; entretanto, uma foto ruim pode estragar um bom texto. Tendo a chance de estourar a página ou até mesmo ganhar a capa. Coisas lá do tempo do jornal impresso e das redações encorpadas.

Minha última missão foi registrar a situação de duas obras públicas [de infraestrutura] – da Linha Verde e Trincheira Mario Tourinho – em Curitiba que estão em sistema de lentidão, atrasadas ou sequer saíram do papel e sempre, em tempos de campanha ou outras coisas, serve de propaganda. As fotos ilustraram o artigo assinado por Iara Maggioni [ em especial para o jornal Gazeta do Povo]. E deu boa, como a gente diz por aqui. Deu capa!

Uma das imagens ilustrou a capa da revista semanal da Gazeta do Povo. Obviamente produzi centenas de fotos. Em formatos horizontais (para atender não só a diagramação, mas também o site) e verticais – para a capa e internas.

Dessa pauta, três imagens foram selecionas. A diagramação interna ficou um tanto que redundante. Repetitiva, pobre, visto que a imagem selecionada era a mesma proposta na capa. Mas, enfim, não é uma reportagem calcada no fotográfico, isto é, não temos autonômia para decidir. A fotografia de jornal ora é tem força narrativa, ora é meramente ilustrativa.

Contudo, fora o contexto político em questão, compartilho parte de material que produzi. Caminhei cerca de 4 quilômetros e produzi centenas de fotos de algumas situações. O equipamento utilizado foi uma 1Dx Mark 4, lentes 16-35mm e 100-400mm com duplicador.

Linguagem fotográfica
Em fotojornalismo, num sentido geral, ainda mais nesse tipo de pauta, você se mantém fixo à realidade preponderante. Fotografa o que há na senso visível, mas há espaço para subjacências denotativas, como contrapontos e até mesmo irônias.

No caso da imagem que ilustrou a capa, a foto expõe o contexto em questão. Embora essa era a principal demanda, fiz dezenas de imagens.

Trecho na Linha Verde integração Sul e Norte de Curitiba. O trecho próximo ao Atuba está atrasado e as obras se arrastam com pouca atividade na canteiro. Fotos: André Rodrigues

Dos nosso pequenos dilemas
Vou compartilhar uma questão em particular. Pois bem, boa parte das imagens nesse contexto são feitas em sentido geral – geral mesmo, pois até as seleções de lente são na perspectiva de grande ângular ou no sentido da linguagem de grande plano. Não obstante, há situações [imagens] que podem produzir sensasionalismo, ilusão ou até mesmo engano. Na rotina do jornalismo, isso pode acontecer até mesmo nessas pautas mais simples.

No fim do trecho da obra avistei um um  funcionário sentado no canteiro. Ele fumava tranquilamente seu cigarro esperando o tempo realizar seu trabalho. A fumaça subia calmamente, assim como sua postura diante do imenso canteiro de obras. Vejamos, na construção imagética em questão, eu poderia ter produzido uma imagem que remeteria a certo marasmo, lentidão ou mesmo inércia na obra, mas não era essa a realidade. Sei que o sujeito estava lá parado e até me olhava com certa desconfiança.

Contudo, considerei alguns pontos ante de tomar alguma foto. A hora condizia com a “hora do almoço”. Além disso, sequer conversei com a pessoa em questão e produzir uma imagem um tanto que leviana, pois não corresponde à realidade do problema. Ademais, num outro contexto e até mesmo desdobramento, a gente sabe que a corda sempre arrebenta para o lado fraco. Ou seja, o cara que tá ali pode ser repreendido ou até mesmo responsabilizado por algo que foge da sua esfera e realidade. O que nos remete a outra anedota da fotografia: há horas de erguer a câmera ou hora de baixar.

 

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