A arte de ver o invisível – Ditos e não-ditos em The Americans

Eu gosto muito de livros de fotografia e acredito que todo fotógrafo de verdade também aprecie um bom livro do gênero. Minha biblioteca é bem modesta, porém têm títulos que não podem faltar. Se não consta na prateleira, pelo menos ta na lista das futuras aquisições.

Um livro de fotografia é uma prazerosa viagem. Você embarca para o mundo no qual o fotógrafo revela. A cada página, a cada fotografia, você segue rumo a um universo peculiar cheio de possibilidades de (re) construir todo um imaginário acerca do que o fotógrafo vivênciou, do envolvimento, da experiência e a mágica revelação (no sentido do deslumbramento) por trás de tudo aquilo.

Dentro do universo literário fotográfico há centenas de obras de fotógrafos renomados e livros emblemáticos. Por exemplo, “Trabalhadores” e “Éxodos”, do Sebastião Salgado. “A Life in Pictures”, de Steve Mccurry; ou mesmo os livros da Magnum como “Magnum Contact Sheets”, “Koudelka” do Josef Koudelka, e tantos outros.

Sem esquecer os teóricos como Ilusão Especular (Arlindo Machado), “Sobre Fotografia” (Susan Sontag), “Filosofia da Caixa Preta” (Vilém Flusser). Particularmente falando, gosto muito de livros “sobre” fotografia. Da análise da fotografia enquanto linguagem e expressão. Assim como toda uma gama de livros sobre como fazer isso, como fazer aquilo dentro da fotografia.

Mas nesse post quero falar sobre um livro em especial. O classudo: “The Americans”, do Robert Frank.

Clássico porque estamos falando de um dos livros mais influentes editados pós 2ª Guerra Mundial. Basicamente um divisor de águas no que tange o fotodocumentarismo moderno. Caso não tenha ideia do que estou falando, trata-se do projeto do suíço Robert Frank, que entrou num Ford, munido de um bolsa cheia de filmes, duas câmeras e pelo que consta algumas garrafas de bebidas. E com isso ele se propôs a fotografar a América.

E ele fez isso com refinamento. Esse trabalho ecoa até hoje como uma dos mais respeitados registros da vida dos americanos. Frank foi um voyeur social, revelou camadas da sociedade e deixou tudo em aberto para as possíveis interpretações. As fotos tem um poder sutil, numa poética visual elaborada.

Numa olhada rápida, para os descuidados, a estética não chama muita atenção, mas trata-se de um registro fotográfico singular. na primeira camada você encontra a realidade mas quando você adentra encontra pessoalidade e intencionalidade visto a seletividade do olhar.

Frank rodou os Estados Unidos e mirou a câmera para o ser humano que ali estava inserido. Capturou a diversidade e as idiossincrasias da vida americana. Nessa jornada incluiu anônimos, ricos, pobres, negros, pessoas em suas rotinas, enamorados, elementos de referência como jukeboxs, driveins, postos de gasolinas, carros e tudo mais da vida contemporânea estadunidense.

Nicholas Dawidoff, no artigo “O Homem que viu a América”, ressalta que as fotografias revelam toda uma riqueza não só da externalidade das pessoas, mas de emoções como a alegria, melancolia, tristeza, indiferença e tudo que um povo pode ter e ser. E você realmente vê isso no corpo do trabalho.

Ver o invisível
Falando das fotos, há várias que eu curto. Uma delas é a foto que abre o livro. A senhora atrás da bandeira dos EUA soa algo como uma americana a ser revelada ou aqui estão os americanos e eu vou te revelar.

Outra foto interessante, mas que de prima não chama muita atenção, entretanto, tem um poder incrível é a da ascensorista no Hotel Miami. Na revista Zum, Dorrit Harazim discorre sobre essa foto que foi intitulada “Elevator”. A foto mostra muito mais do que o estilo despretensioso, informal e intruso de Frank, mas vale ater-e à expressão da jovem, que pra alguns ela está melancólica ou envolta em sonhos.

Como ressaltou Dorrit, Frank viu ali não somente a estrutura do hotel e o equipamento para subir os andares, mas um ser humano. É o revelar mágico e extraordinário das coisas simples.

No mais, o mestre compôs uma majestosa e complexa narrativa acerca das pessoas desse enorme país que o acolheu. O The American reveoa mais do que o aparente. Perpassa pelas trivialidades de um cowboy com seu cigarro, mostra a indiferença num drive-in e também questões mais profundas como a segregação racial.

Poderíamos ficar horas aqui falando desses ditos e não-ditos da fotografia do The Americans, mas deixo aqui como sugestão para você que ainda não deu uma boa apreciada nesse livro. Se não tem, vale adquirir um. E se já tem, separa uma garrafa de vinho e senta com calma para uma viagem.

Curiosidades sobre o projeto
Robert Frank rodou 16 mil quilômetros, passou por 30 estados. E a coisa toda rolou em 9 meses, fechando a viagem com mais de 760 rolos de filme e 28 mil chapas. Desse emaranhado ampliou apenas mil e somente 83 foram as selecionadas para o livro.

A primeira edição não foi publicada nos Estados Unidos e sim na França. Os editores não viram com bons olhos aquelas fotos, um tanto que melancólicas e com certo maneirismo – quase depreciativo acredito. Não obstante, em 1959 sai a edição americana com prefácio do célebre autor da geração beat Jack Kerouac.

Frank trabalhou com fotografia de moda, mas pra nossa alegria acabou influenciado por Walker Evans – aquele documentarista da grande depressão.

E ainda. Você não bota fé, mas de acordo com Dawidoff, o fotógrafo foi ignorado pela Magnum. Robert Capa achava as fotos de Frank muito horizontais, visto que a necessidade das revistas era a vertical. Por fim, segundo o esse mesmo articulista, Frank ganhou muito dinheiro, principalmente com premiações de arte, também com a venda das fotos. Porém diz que o fotógrafo não da muito bola e criou uma instituição pra fazer bom uso da dinheirama . Depois, meio que abandonou a fotografia e virou cinegrafista underground.

E não se esqueçam: como disse Frank:

“O importante é ver aquilo que resulta invisível para os outros”

Fiquem bem e até o próximo!



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