O Desafio do Retrato [2] – aposte na simplicidade

“Todo retrato é um autorretrato.”  


Entre um trabalho e outro, entre pautas, sempre tem a tarefa de registrar alguém. Seja para uma foto single para uma reportagem ou história. Durantes esses dias fiz alguns. Dois desses personagens me atraiu a atenção. Além de serem pessoas agradáveis, a situação proporcionou um recorte didático sobre o tema. Então, pego o gancho para retomar o assunto sobre o “desafio do retrato” e de lambuja segue algumas dicas.

Aliás, convido você para ler não só esse artigo, mas também o anterior (e compartilhar com quem tem interesse ), pois vamos tratar mais vezes dessa temática aqui. Particularmente o primeiro texto é bem legal e está baseado no trabalho de um fotógrafo francês que manda muito bem no assunto. Uma sacada fodástica que vai fazer você refletir sobre a maneira como encara esse tipo de trampo e como retrata as pessoas.

O desafio da vez era fotografar uma senhora centenária e um escritor curitibano. Ambos os retratos foram agendados em suas respectivas casas. Excelente, porque é o local de conforto da pessoa e torna a coisa menos intimista do que uma locação com muita gente olhando e tal. Desses dois trabalhos extraio três considerações: mantenha a simplicidade, mantenha-se calmo e seja você.


Sara Furquim

A senhora Sara Furquim tem 100 anos. Completou esses dias e diante desse fato acabou ganhando uma história sobre sua vida na revista do jornal Gazeta do Povo. Não somente por ser centenária, mas também por ser uma mulher que se manteve firme numa epóca; como ela mesmo disse, “que mulher era para ser de casa”. Sara foi professora e até chegou a ser vereadora da cidade. Muito querida por todos, ajudou na formação de muita gente, contribui com a primeira biblioteca da cidade, publicou livros e recebeu diversas homenagens.

A casa da dona Sara fica em Rio Branco do Sul – cidade aqui do entorno de Curitiba, a pouco mais de 50 quilômetros. Um casarão de esquina, bonito, lá do tempo da fundação da cidade. Fato positivo também para ambientar.

Chegamos e fomos direto para as foto. Hum, não necessariamente. Antes, vale sempre a máxima da boa conduto. Se apresentar, conversar um pouco e tudo mais.

Combinei com a repórter de fazer as fotos antes da conversa propriamente. Pelo fato de ser uma senhora de idade avançada. E considerando que a entrevista seguiria por um bom período de tempo – como aconteceu – optei por fazer a parte “mais chata” antes. Isto é, ter alguns retratos e não correr o risco de pegar a pessoa entediada com a entrevista – sim, isto acontece.

Pois bem, fiz uma sequência de fotos na sacada da casa, visto que era o primeiro ambiente interessante do lugar. Depois disso já liberei a dona Sara para o bate papo com a jornalista.

Enquanto elas conversavam fui fazer um reconhecimento do local. Lembrando que ali é “casa de vozinha”. Tudo é muito singelo, muito parado no tempo, perfeito para fotos ambientadas e com aquele saudosismo.

Para resumir, durante a entrevista fiquei atento à conversa. E fui extraindo informações para transformar em imagens. Principalmente a ocupação atual (ela gosta de costurar e presentear os parentes e amigos com bordados), mantém a atividade intelectual como trovadora (escreve poesia – trovas na verdade).

dica #1: neste caso, de captar o retrato para um artigo; para uma história de personagem como se diz no jargão jornalístico, vale ficar atento para esses pontos da conversa. De repente ali pode estar a sua foto.

Caibar
Cheguei na casa do escritor pontualmente no horário marcado. Para ser sincero, fui no escuro. Não sabia quem era, nunca li um livro ou sequer resenha sobre o cara.

Dica #2 : Não façam isso. Quanto mais informação antes, melhor.

Sorte a minha que o Caibar Magalhães era gente boa e receptivo. Fui logo entrando para dentro da casa e começamos a jogar conversa fora – uma boa estratégia que uso pra ganhar tempo.

A foto foi encomendada pelo colunista José Carlos Fernandes. Geralmente do Zeca há uma interferência na foto (fotomontagem). Pois bem, isso quer dizer que preciso ter um espaço negativo na foto – aquela área no quadro que fica sobrando, vazio e tal. Já era um começo.

Dica #3: Saiba o destino final da sua foto. O contexto que ela vai ser publicada. Conheça a linha editorial do veículo, o estilo do jornalista ou escritor e tal.

Conversa vai, conversa vem, eu ia montando o equipamento. Na maior cara de pau, com o gelo já quebrado, pedi desculpas e confessei que não sabia quem era ele e nem tinha lido absolutamente nada de sua obra. E já fui pedindo para ele me ajudar no contexto da coisa. Rimos e ele começou a me dar um caminho.

Os primeiros cliques rolaram numa sacada do segundo piso da residência. Contudo, a foto mesmo estava na sala. A imensa janela, com a luz gratuíta dada pela natureza, foi suficiente.

Eu até tentei inventar moda, colocar um hazy, fazer uma luz de preenchimento, mas foi demasiadamente desnecessário. Tava tudo pronto ali. Até os elementos dispostos na mesa estavam colocados quase como uma produção. E para bater o martelo que seria assim, a cachorra do Caibar deu um toque final. Não precisa mais que aquilo. Se colocar mais estraga.

Ah! As considerações
Tanto no caso da Dona Sara, quanto no retrato do Caibar eu tentei “florear” a coisa. E é nisso que consiste a dica geral.

Enquanto separa o equipamento para ir para a pauta da dona Sara, coloquei na bolsa octosoft, hazy, sombrinha, flashs extras, rebatedor, difusor e tudo mais. Num rompante da coisa, meu colega sugeriu ir na simplicidade. Não era uma produção para o caderno de moda. É um retrato, singelo, verdadeiro e tal. Levei o necessário e fiz basicamente quase tudo com duas lentes e a luz natural.

• Simplicidade
Eu tenho um aforismo que faz parte da minha postura (e conceito de vida). “Enquanto os outros caminham pelo arco, eu caminho pela corda”. Um empréstimo lá do meu tempo de artes marciais. Quando me distancio desse conceito, recito esse provérvio marcial para retomar o caminho.

Pois bem, isso quer dizer que o modo mais simples, pode ser a melhor solução. Menos é mais. Se eu te contar que 90% das faço é com uma fonte de luz ou com luz natural. Claro, há ressalvas, certamente. Entretanto, o que reforço é que quanto mais você entender o que quer, entender suas limitações e até mesmo a limitação da situação, você pode tirar proveito.

O melhor equipamento é o que você tem hoje. Tire o máximo dele. Seja criativo. Equipamentos nem sempre são a melhor solução – aliás, não são. O que vale é sua linguagem fotográfica, seu estilo, seu conceito e criatividade. Gaste tempo fotografando, criando, com a delineação do seu conceito e depois vem o que você vai usar. Até porque simplicidade não é só no aspecto técnico, mas no modo de você agir.

• keep calm and continue
Há ocasiões que parece dar tudo errado. O flah não dispara, não sincroniza, o rádio não transmite o sinal, a bateria tá no fim, você esqueceu os cartões (isso não), entre outros imprevistos. Sem contar, que diante de um trabalho há o nervosismo. Eu sempre fico nervoso. Mesmo com algum tempo de estrada, ainda tenho aquele friozinho na barriga para todo tipo de trabalho. É tipo um sistema de segurança para não deixar a coisa relaxar.

Respira fundo e ache uma ancoragem para colocar os pensamentos no lugar. Bata um papo, vá tomar um água, enfim, arranje alguns segundos de escape para pensar em algo, bolar a solução alternativa.

Sempre é bom ter alternativas para qualquer contrapartida. Ninguém gosta e nem é legal transparecer que você não sabe o que está fazendo. Mas, como o caso aqui é imprevisto, vale a citada palavra criatividade. Já improvisei e achei solução para luz, rebatedor, tripé, locação, cliente chato, pessoa arrogante, e tudo mais.

Particularmente não gosto de fazer nada corredo. Embora haja situações na qual o tempo é curto – principalmente para o fotografado – dou um jeito de ter o mínimo para a realização do trabalho – inclusive para os contratempos.

• Doe-se
Um último toque. “Retrato você não toma, lhe é dado”. Por isso é importante o ponto de ter calma, simplicidade, postura e, em especial, saber interagir e ser empático. Aquele negócio, fotógrafo tem de saber chegar e saber sair.

Nem todo mundo acha uma sessão de fotos a coisa mais agradável do mundo. Cada pessoa tem sua maneira de se comportar e reagir. A sua missão é saber atravessar essa barreira e ter a foto – e aqui também me refiro à essência, a natureza real ou representada da pessoa. E aqui tem muito de envolvimento.

E a lógica funciona bem. Quanto mais você se envolve, mais retorno você tem. De forma resumida quero dizer para ser simpático, ter controle da situação (afinal, você está no comando do baguio todo), entender o tipo de pessoa, deixar ela calma e mostrar que tudo está correndo bem. Como eu comentei no artigo anterior. Trata-se de um encontro furtivo, um convite para uma dança, que tem ritmo, cadência, charme e insegurança para os dois.

Por fim, quem sabe, no fim da sessão a pessoa tenha te presenteado com o melhor dela – no sentido amplo do termo. Vale tentar

Você tem alguma sugestão? tem alguma maneira particular de retratar? Comente aí.

Fiquem bem e até o próximo post!



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