Voto em Imagens – um olhar sobre as eleições

“Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme” – Proverbios 29, 21 (Bíblia)


Algumas ideias eventualmente surgem quando você está sentando numa cafeteria (ou padaria) apreciando um café honesto. Café, conversava fiada e blocos de anotação são boas combinações. E foi mais menos nesse sentido que surgiu lá em meados de 2010, a ideia de fotografara as eleições abordando aspectos que não fossem apenas focados nos candidatos.

Café em setembro de 2010. Foto Marco André Lima

A primeira investida ocorreu no pleito de 2010. De forma bem modesta corremos a cidade de Curitiba e região com a “missão de registrar e captar a essência de uma eleição”. O material ficou fraco, pobre e longe do que nossas mentes fotográficas tinham sonhado. E só não foi um desastre total porque estávamos em quatro fotógrafos – eu, Marcos Xreda, Marco Lima e o italiano Hans Basso. Mas, valeu porque conseguimos passar num edital e as imagens viraram uma exposição fotográfica. Muito positivo, pois reforçou a vontade de continuar com a proposta de cobrir eleições com uma estética e liberdade fotográfica.

Além do conceito central de garantir o registro do “Dia D”, ou seja, a votação e todo seu contexto estrutural, outras pautas e temáticas correlatas foram surgindo. Cada processo eleitoral tem suas peculiaridades, seu contexto político e momento na história. Surge a necessidade de ampliar e ir para outras cidades e até países.

Milhares de fotos foram tomadas, compreendendo o registro desde questões menores como a publicidade eleitoral a outras mais complexas em relação à realização e efetivação das eleições – como a distribuição de urnas eletrônicas – o recadastramento biométrico, militantes, partidos, manifestações políticas, entre outras.

Soma-se mais de oito anos acompanhando essa coisa e objeto de estudo que é a eleição. Aliás, esse e outros momentos tão importantes em qualquer nação. Período que é exercido um dos direitos inerentes às sociedades democráticas maduras, que é o sufrágio.

Como em qualquer trabalho fotográfico houve momentos de acerto e outros nem tanto, mas acredito que ganhei muito por documentar e ter um recorte dos fatos desse período.

Tribunal Superior Eleitoral / Paraguay 2013 – Foto Marcos Xreda

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Tentei enxergar as pessoas por trás de todo processo. Algo como disse o mestre Robert Frank: “O importante é ver aquilo que resulta invisível para os outros.” Aqueles que trabalham por amor, por ideologia. Ou os que militam por paixão, por respostas. Tal como na vez que registrei um jovem que fez uma tatuagem do Partido Comunista, da senhora de mais de 80 anos que fez questão de se registrar pra votar, do cara que foi pra rua pra protestar, do índio que acreditava naquele partido e político. Embora eu também tenha visto o que vive à margem como o morador de rua e usuário de drogas que construiu sua moradia com publicidade eleitoral, ou da briga política que colocou o beneficiário do programa Bolsa Família como um odiado. Vi por dentro e, talvez, um pouco além do processo.

 

Eleições Paraguai e Chile
No período de intervalo do sufrágio brasileiro, optamos por cobrir eleições fora do país. Em 2013, eu e Marcos Xreda, entramos num ônibus e 1200 quilômetros depois desembarcamos em Assuncion, no Paraguai. A eleição no país estava em alto clima, pois era a primeira eleição livre direta após a ditadura e queda do presidente Franco.

Ainda em 2013, Xreda seguiu para o Chile para registrar o pleito na capital Santiago e região. 

Publicações
O projeto demandou acompanhamento de eleições, estudo e análise do contexto eleitoral e também investimento – tanto de tempo, quanto em dinheiro. Entretanto, a recompensa veio com a divulgação e projeção do projeto (e de nossos nomes), com as exposições e principalmente as publicações.


Além de três exposições, conseguimos idealizar três publicações. Em 2012 é lançado o livro “Biometria e Eleições – o voto em imagens. Um livro que resume todo um processo eleitoral, inclusive com registros únicos da realização de uma eleição como o processo de recadastramento do eleitorado e a utilização urnas eletrônicas, as cerimônias de verificação e lacração de urnas, a distribuição e montagem, checagem e zeressíma, apuração.

Também viabilizamos o “Indeleble”, com o resultado da cobertura no Paraguai e já com uma pegada e estética mais livre do que o “formal” e “institucional” de 2012.

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Em 2014 lançamos a publicação formato jornal “F(X)VOTO”. Confesso que amei o formato e, inclusive hoje, há quem esteja resgatando o jornal e oferecendo esse formato para fotógrafos publicarem seus ensaios. FXVOTO apresenta fotos mais contextualizadas e até mais “maduras” do processo eleitoral. A publicação ficou super visual e com imagens em grande formato.

Ainda tem mais
Dentro dessa proposta fotodocumental surgiram outros ensaios, entre eles o ensaio “Falam as Paredes”publicado na Agência Plano –, no qual a registrei pichações com manifestações e opiniões políticas. O título acabou sendo de apropriação de um livro do livro Bem e do Mal, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Ainda dentro dos assuntos paralelos, os anos de 2015/2016 ficaram marcados por disputas ideológicas e de poder muito intensas entre espectros da esquerda e direita. O Brasil adentrou num período de polaridade que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e fim do período de 16 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Tudo isso envolto em escândalos de corrupção, insatisfação popular que já nascia na onda de Protestos da jornada de Junho/Julho 2013, entre outros fatores.

Nesse ínterim, cobri alguns atos contrários e favoráveis à destituição da presidente. Bipolaridade política” e “Manifestantes” e os grandes atos que tomaram as ruas do país.

Eleções Brasil 2018
A eleição geral de 2014 foi acirrada com a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Assuntos como corrupção, comunismo, Cuba, Bolsa Família, homossexualidade, Copa Fifa, aborto e até satanismo circundaram a agenda e debate. A disputa começava a ser travada com intensidade na virtualidade, principalmente com falas e fatos atribuídos aos candidatos.

As eleições gerais do Brasil 2018 estão ainda mais polarizadas. Surgiram novos atores e novas forças políticas – e velhos ainda tentando convencer e ocupar espaço e poder. Além disso, a eleição deste ano tem uma característica bem atípica – temos um candidato preso concorrendo ao cargo majoritário do país. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue detido na sede da Polícia Federal (PF), em Curitiba, entretanto,  gerou uma estratégia com a sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas impugnada posteriormente. Contudo, o  jogo está sendo jogado e os candidatos estão, na prática, em plena campanha – há poucos dias da votação do primeiro turno.

A disputa está acirrada. O embate ideológico segue não só entre os candidatos, cabos eleitorais, apoiadores, mas principalmente no campo virtual. A disseminação de informações falsas e inverdades foram ampliadas e até tornou-se uma estratégia – combatida por meio de checagem e verificação. A era das “Fake News” nos tempos de Desordem de Informação e pós-verdade. Uma nova preocupação para políticos e um problema para a sociedade que precisa estar informada e não ser manipulada para a decisão do voto.

O que dá pra fazer
Para esse ano a certeza é a cobertura do dia da votação. No quesito geral, há dois grandes agentes fomentando as paixões políticas do brasileiro. De um lado o polêmico Jair Bolsonaro (PSL) e do outro a peculiar candidatura do ex-presidente Lula (PT).

Bem, a eleição é decisiva para o Brasil. Não vou dizer a “mais importante” porque caio numa repetição, porém com tantos pontos relevantes é impossível passar sem registrar esse período tão importante para a história do Brasil e de relevância política também para outros países da América Latina. Com toda reviravolta que acometeu o país, num cenário (ainda) de crise econômica e política, a eleição desde ano vai ser única e até decisiva para o futuro do Brasil.

Contudo, estou elaborando (tentando pelo menos) um trabalho mais específico com o fato do ex-presidente Lula enquanto candidato – ou apenas uma estratégia política para projetar o vice Fernando Haddad à disputa. Além disso, aqui em Curitiba manifestações dos apoiadores do PT com o mote de “Lula Livre” são realizada constantemente tanto no acampamento intitulado “Vigília Lula Livre”, em frente ao prédio da PF, como nas ruas centrais da cidade.

Dá pra dizer que rende alguma coisa. Vamos ver. Abaixo uma galeria com algumas imagens. Pra ver outras, só seguir os links citados acima.

Obrigado! Fiquem bem e até o próximo post


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Elections Proposal for a photographic reading of the elections seeking diversity and singularities in the elections. The project was born in 2010 from an informal conversation between photographers. The coverage observed not only the suffrage and the voting day, but also the process of adopting the biometric system – voter recognition through digital. In this documentary project, issues are observed, such as the structural part of the lawsuit, the political context and guidelines correlated to the theme. The photographic documentation provided 3 exhibitions and 3 publications – one in newspaper format. The proposal is still under way as a long-term project. More information and reports see link in bio. This photo was taken in 2010 in an electoral section in Curitiba, Brazil. Project in progress

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