Pente, navalha e tradição

Por dentro de uma barbearia tipo antiga mesmo


A barbearia de Aramis Malkut é rústica. Não é vintage. É antiga mesmo. No balcão, o clássico “Leite de Colônia” e outros produtos baratos. O espelho desgastado reflete a ação do tempo de quem atua há mais de meio século. É uma barbearia das antigas. Tipo assim old school de verdade.

A Santa Rita de Cássia, batizada com esse nome por devoção, é um pedacinho de época. Daqueles comércios típicos de bairro como a mercearia, a quitanda, o empório ou o boteco. Tem até plantas e bananeiras cultivadas na frente do estabelecimento.

Lá dentro você vai encontrar a tradicional cadeira, jornais e folhetins, a TV e as tradicionais revistas com mulheres em poses sensualizadas. O aparato de trabalho é comum como de qualquer outro barbeiro. Simplicidade que esconde a técnica refinada do escanhoador profissional.

Aramis, com seus 75 anos, defende o modelo rústico, simplão mesmo, sem frescuras ou modernices. Não deu atenção ao frisson e refinamentos da profissão. Inclusive no preço, que é módico. Atualmente o corte de cabelo sai por 18 reais e a barba 15. Uma pechincha, considerando valores praticados em salões chiques e barbershops. “Aqui o trabalho é mais tradicional”, diz. “O tipo de trabalho deles é diferente.”

Diferente como?
Ou seja, não vai ter lavagem de cabelo, não vai ter creminho, massagem capilar, muito menos secador de cabelo, videogame e outras regalias. Caso a cadeira esteja ocupada (o que não é tão incomum), há a possibilidade de tomar um “rabo de galo” ou uma cerveja barata, no botequim ao lado.

De certa forma, quem frequenta a barbearia não vai por causa do ambiente ou porque encontrou algo excepcional. Mas sim pela arte praticada pelo Aramis, pela amizade e ou por certo costume.

As mãos habilidosas tosaram muitas madeixas e barbas. Seu trabalho agrada um público bem diversificado. A posição social não importa, pois o trabalho será executado da mesma maneira. Na cadeira não há distinção, apenas a nobre arte do corte. “Terceira e até quarta geração já sentaram nessa cadeira”, enfatiza Aramis.

Com certa áurea de orgulho e força tônica nas palavras, ressalta que é um “barbeiro” e não “cabeleireiro”. Pelo menos não se tornou um e nem gosta de ser assim chamado. Algo parecido com o que acontece quando você chama um motociclista de motoqueiro. Não é legal.

Um modelo que chega ao fim
Aramis começou a trabalhar aos 12 anos. Desde os tempos de menino a conta está em 54 anos de profissão. Aprendeu com o pai, o senhor Basílio Makult, que aprendeu com o avô.

Esse “tradicionalismo”, ou modelo no qual acredita Aramis, vai ficando para trás. Essa coisa de passar ponto e navalha de pai para filho já não é tão comum. Entretanto, ele não acumula amarguras por este devir. Continua trabalhando e atendendo seus ‘clientes-amigos’. Justamente por isso recebe constantemente méritos e elogios.

As barbearias ganharam novo impulso, um visual “styling”. Pela cidade há várias delas. Moderninhas sim. Algumas originais, outras meramente um negócio. Há muita gente nova – de idade mesmo – que vai dando continuidade na nobre arte. Ela não chega ao fim, apenas se transforma.

Mas essa é outra história, para outro personagem. Depois eu conto…

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